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quarta-feira, 26 de março de 2014

Consagração a Jesus Cristo por Maria

Consagração a Jesus Cristo pelas mãos de Maria
- Ó Sabedoria Eterna e Encarnada! Ó amabilíssimo e adorável Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Filho Unigênito do Pai Eterno e da sempre Virgem Maria.
- Adoro-Vos profundamente, no seio e nos esplendores do Vosso Pai, durante toda a eternidade, e no seio virginal de Maria, Vossa Mãe digníssima, no tempo da Vossa Encarnação (nota 1).
- Dou-Vos graças por Vos terdes aniquilado a Vós mesmo, tomando a forma de escravo, para livrar-me da cruel escravidão do demônio. Eu Vos louvo e glorifico por Vos terdes querido submeter em tudo a Maria, Vossa Mãe Santíssima, a fim de, por Ela, tornar-me Vosso fiel escravo.
- Entretanto, ai de mim, criatura ingrata e infiel! Não guardei os votos e promessas que tão solenemente Vos fiz no meu Batismo. Não cumpri as minhas obrigações; não mereço ser chamado Vosso filho, nem Vosso escravo; e, como nada há em mim que não mereça a Vossa repulsa e a Vossa cólera, não ouso aproximar-me por mim mesmo da Vossa Santíssima e Augustíssima Majestade.
- Recorro, pois, à intercessão e à misericórdia de Vossa Mãe Santíssima, que me destes por medianeira junto de Vós. É por intermédio d’Ela que espero obter de Vós a contrição e o perdão dos meus pecados, a aquisição e conservação da Sabedoria.
  • Ave, pois, ó Maria Imaculada, Tabernáculo Vivo da Divindade, onde a Eterna Sabedoria escondida quer ser adorada pelos anjos e pelos homens.
  • Ave, ó Rainha do Céu e da Terra, a cujo Império é submetido tudo o que há abaixo de Deus.
  • Ave, ó Seguro Refúgio dos pecadores, cuja misericórdia a ninguém despreza. Atendei ao desejo que tenho da Divina Sabedoria, e recebei, para isso, os votos e ofertas apresentados pela minha baixeza.
- Eu,____________, infiel pecador, renovo e ratifico hoje, nas Vossas mãos, as promessas do meu Batismo (nota 2)
- Renuncio para sempre a satanás, às suas pompas e suas obras, e dou-me inteiramente a Jesus Cristo, a Sabedoria Encarnada, para o seguir, levando a minha cruz, todos os dias da minha vida. 
- E para lhe ser mais fiel do que até agora tenho sido, escolho-Vos hoje, ó Maria, na presença de toda a Corte Celeste, por minha Mãe e Senhora. 
- Entrego-Vos e consagro-Vos, na qualidade de escravo, o meu corpo e a minha alma, os meus bens interiores e exteriores, e o próprio valor das minhas obras passadas, presentes e futuras, deixando-Vos pleno e inteiro direito de dispor de mim e de tudo o que me pertence, sem exceção alguma, segundo o Vosso agrado e para maior glória de Deus, no tempo e na eternidade.
- Recebei, ó Benigníssima Virgem, esta pequenina oferta da minha escravidão, em união e em honra à submissão que a Sabedoria Eterna quis ter à Vossa Maternidade; em homenagem ao poder que ambos tendes sobre este vermezinho e miserável pecador; em ação de graças pelos privilégios com que largamente Vos favoreceu a Trindade Santíssima.
- Protesto que quero, de hoje em diante e firmemente, como Vosso verdadeiro escravo, buscar a Vossa honra e obedecer-Vos em todas as coisas.
  • Ó Mãe Admirável, apresentai-me ao Vosso amado Filho na condição de escravo perpétuo, a fim de que, tendo-me resgatado por Vós, por Vós também me receba propiciamente.
  • Ó Mãe de Misericórdia, concedei-me a graça de obter a Verdadeira Sabedoria de Deus, e de colocar-me, para isso, entre o número daqueles que amais, ensinais, guiais, sustentais e protegeis como filhos e escravos Vossos.
  • Ó Virgem Fiel, tornai-me em tudo um tão perfeito discípulo, imitador e escravo da Sabedoria Encarnada, Jesus Cristo, Vosso Filho, que eu chegue um dia, por Vossa intercessão e a Vosso exemplo, à plenitude da sua idade na Terra e da Sua glória no Céu. Amém. Assim seja.
Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem Maria
São Luis Maria Grignion de Monfort

Nota 1:
Culto especial ao Mistério da Encarnação
§243. Quarta prática de devoção. Terão especial devoção ao grande mistério da Encarnação do Verbo, celebrado no dia 25 de março. É o mistério próprio desta Devoção, visto que ela foi inspirada pelo Espírito Santo:
1º. Para honrar e imitar a inefável dependência que o Filho de Deus quis ter de Maria, para glória de seu Pai e para nossa salvação. Esta dependência manifesta-se duma maneira particular neste mistério, em que Jesus Cristo está cativo e escravo no seio de Maria Santíssima, e onde depende d'Ela em todas as coisas.
2º. Para agradecer a Deus as graças incomparáveis que deu a Maria e, particularmente, por a ter escolhido para sua tão digna Mãe, escolha que se realizou neste mistério.
- Estes são os dois fins principais da escravidão de Jesus Cristo em Maria.



Nota 2:
Uma Perfeita Renovação dos Votos do Santo Batismo
§126. Como disse, a “Verdadeira Devoção A Santíssima Virgem Maria” podia muito justamente chamar-se uma “Renovação perfeita dos votos ou promessas do Santo Batismo”.  Todo cristão:
  • Antes do Batismo, era escravo do demônio, pois lhe pertencia.
  • Depois de receber o Batismo renunciou solenemente, pela própria boca ou pelas de seu padrinho e sua madrinha, a satanás, às suas pompas e às suas obras. Assim tomou a Jesus Cristo por seu Mestre e Soberano Senhor, a fim de depender d'Ele na qualidade de escravo de amor.
- É o que se faz pela presente Devoção:
  • renuncia-se (como está expresso na fórmula da consagração), ao demônio, ao mundo, ao pecado e a si mesmo, dando-se inteiramente a Jesus Cristo pelas mãos de Maria. E ainda se faz mais, porque no Batismo fala-se habitualmente pela boca de outra pessoa, isto é, do padrinho e da madrinha. A entrega a Jesus Cristo é feita por intermediários. Mas nesta Devoção damo-nos por nós mesmos, voluntariamente, com conhecimento de causa.
Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem Maria / São Luis Maria Grignion de Monfort

segunda-feira, 24 de março de 2014

Maria na Eucaristia

Modo de praticar a “Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem Maria” na Comunhão Eucarística.

Antes da Comunhão
§266. 1º. Humilhar-te-ás profundamente diante de Deus;
2º. Renunciarás ao teu fundo todo corrompido e às tuas disposições, embora o teu amor próprio as faça parecer boas;
3º. Renovarás a tua consagração dizendo: “Todo Vosso sou, ó querida Mãe, e tudo o que tenho é Vosso!(Tuus totus ego sum, et omnia mea tua sunt!);
4º. Suplicarás a esta boa Mãe que te empreste o seu Coração, para n'Ele receberes seu Filho com as disposições d'Ela. Dir-lhe-ás que a glória de seu Filho exige que não seja recebido num coração tão manchado como o teu e tão inconstante, que não tardará a privá-lo da sua glória ou a perdê-lo.
- Mas, se Ela quiser vir habitar no teu coração para receber seu Filho, poderá fazê-lo pelo domínio que tem sobre os corações.
- E seu Filho será assim bem recebido, sem mancha nem perigo de ser ultrajado ou perdido. “Deus não sofrerá nada dentro d'Ela” (Sl 45, 6). Dir-lhe-ás confiadamente que tudo o que lhe ofereceste dos teus bens é bem pouca coisa para honrá-la, mas que desejas dar-lhe, pela Santa Comunhão, o mesmo presente que o Pai Eterno lhe deu, e que, deste modo, Ela será mais honrada do que se lhe oferecesses todos os bens do mundo.
- Finalmente podes dizer-lhe que Jesus a ama muito particularmente, e que ainda quer ter n'Ela as suas complacências e o seu repouso, mesmo que agora seja na tua alma, mais suja e pobre que o estábulo, onde Jesus não pôs dificuldades em vir, porque Ela lá se encontrava.
- Pedir-lhe-ás o seu Coração com estas ternas palavras:
Tomo-Vos como toda a minha riqueza.
Dai-me o Vosso Coração, ó Maria!

Durante a Comunhão
§267. Quando estiveres para receber Jesus Cristo, depois do “Pai-Nosso”, dirás três vezes:
Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo!”
A primeira vez será para dizer ao Pai Eterno que não és digno de receber seu Filho Unigênito, por causa dos teus maus pensamentos e ingratidões para com um Pai tão bom. Mas eis que Maria, a Serva do Senhor, está contigo, representa-te e dá-te uma confiança e esperança singulares junto da Divina Majestade. “Porque me deste uma esperança singular” (Sl 4,10).

§268. A segunda vez dirás ao Filho: “Senhor, eu não sou digno...
- Dir-lhe-ás que não és digno de recebê-lo por causa das tuas inúteis e más palavras, por causa da tua infidelidade ao seu serviço. Entretanto, suplica-lhe que tenha piedade de ti, porque o introduzirás na casa da sua própria Mãe e tua. Diz-lhe que não o deixarás partir sem que venha morar em casa d'Ela:
Detive-o e não o deixarei até o introduzir na casa de minha
Mãe e no quarto daquela que me gerou” (Ct 3, 4).
- Pedir-lhe-ás que se erga e venha descansar no lugar do seu repouso, na arca da sua santificação: “Levantai-Vos, Senhor, entrai no Vosso repouso, tu e a arca da tua santidade” (Sl 131, 8).
- Dir-lhe-ás que não pões nenhuma confiança nos teus méritos, nas tuas forças e preparação, como Esaú, mas nas mãos de Maria, tua querida Mãe, como o jovem Jacó nos cuidados de Rebeca.
- Embora pecador e Esaú que és, ousas aproximar-te da sua santidade apoiado e revestido dos méritos e virtudes de sua Santa Mãe.

§269. A terceira vez dirás ao Espírito Santo: “Senhor, eu não sou digno...” Dir-lhe-ás que não és digno de receber a obra prima da sua caridade, por causa da tibieza e iniquidade das tuas ações e das tuas resistências às suas inspirações, mas que toda a tua confiança está em Maria, sua Fiel Esposa. E dirás com São Bernardo:
“Ela é a minha grande confiança,
é toda a razão da minha esperança!”
- Podes mesmo rogar-lhe que venha mais uma vez a Maria, sua esposa inseparável; que seu seio é tão puro e seu Coração tão abrasado como sempre; e que sem que Ele desça à tua alma, Jesus e Maria nela não poderão ser nem bem formados, nem bem alojados.

Depois da Comunhão
§270. Depois da Santa Comunhão, estando interiormente recolhido,
com os olhos fechados, introduzirás Jesus Cristo no Coração de Maria.
- Tu O darás à sua Mãe, que O receberás amorosamente, O instalará honorificamente, O adorará profundamente, O amará perfeitamente, O abraçará com amor e Lhe tributará, em espírito e verdade, várias homenagens que nos são desconhecidas, a nós, envoltos nessas densas trevas.

§271. Ou então, conservar-te-ás profundamente humilhado no teu coração, na presença de Jesus residindo em Maria. Ou conservar-te-ás como um escravo à porta do palácio do Rei, onde Ele está a falar com a Rainha. E, enquanto Eles falam, sem precisar de ti, irás em espírito ao Céu e pela Terra inteira pedir a todas as criaturas que agradeçam, adorem e amem Jesus em Maria, por ti. “Vinde, adoremos, vinde!” (Sl 94, 6).

§272. Ou então tu mesmo pedirás a Jesus, em união com Maria, a vinda do seu Reino sobre a Terra, por intermédio de sua Santa Mãe. Ou pedirás a Sabedoria Divina, ou o Amor Divino ou o perdão dos teus pecados, ou qualquer outra graça, mas sempre por Maria e em Maria.
- Então dirás, considerando-te com desconfiança: Senhor, não olheis para os meus pecados, mas que os Vossos olhos só vejam em mim as virtudes e os méritos de Maria.
E, recordando-te dos teus pecados, acrescenta: “Foi o inimigo que fez isto!” (Mt 13, 28). Eu mesmo sou o maior inimigo com que tenho de lutar; fui eu que fiz estes pecados. Ou então: “Livrai-me, Senhor, do homem iníquo e doloso!” (Sl 42, 1). “Meu Jesus, é necessário que cresçais na minha alma e que eu diminua!” (Jo 3, 30). Ó Maria, é necessário que cresçais em mim, e que eu seja menor que nunca! “Crescei e multiplicai-vos” (Gn 1, 28): Ó Jesus e Maria, crescei em mim, e multiplicai-Vos fora de mim nos outros.

§273. Há uma infinidade de pensamentos que o Espírito Santo fornece; e te fornecerá, se fores interior, mortificado e fiel a esta Grande e Sublime Devoção que acabo de te ensinar. Mas recorda-te de que quanto mais deixares agir Maria na tua Comunhão, mais Jesus será glorificado. E deixarás agir tanto mais Maria por Jesus e Jesus em Maria, quanto mais profundamente te humilhares e os escutares em paz e silêncio, sem procurar ver, gostar ou sentir. Pois o justo vive, em tudo, da Fé, e particularmente na Sagrada Comunhão, que é um ato de fé: “O meu justo viverá da Fé!” (Hb 10, 38).
Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem Maria

São Luis Maria Grignion de Monfort

sábado, 22 de março de 2014

Maria, fazer tudo em Maria

Práticas particulares e interiores
para os que desejam vir a ser perfeitos
§257. As práticas exteriores desta Devoção, que acabo de referir, não devem omitir-se por negligência ou desprezo, na proporção em que o estado e a condição de cada um o permitem. Mas além destas práticas exteriores há ainda práticas interiores, muito santificantes para aqueles que o Espírito Santo chama a uma alta perfeição. Consistem, numa palavra, em
fazer todas as ações por Maria, com Maria, em Maria e para Maria, a fim de mais perfeitamente as fazer por Jesus Cristo, com Jesus Cristo, em Jesus e para Jesus.

Fazer tudo em Maria
§261. É necessário fazer todas as ações em Maria.
- Para bem compreender esta prática, é preciso saber que a Santíssima Virgem é o verdadeiro Paraíso Terrestre do Novo Adão, e que o antigo paraíso não era mais que a sua imagem. Pois há neste Paraíso Terrestre riquezas, belezas, raridades e doçuras inexplicáveis, que o Novo Adão, Jesus Cristo, aí deixou. Neste paraíso Ele achou as suas delícias durante nove meses, operou as suas maravilhas e ostentou as suas riquezas com a magnificência de um Deus. Este Lugar Santo não é composto senão de uma terra virgem e imaculada, da qual foi formado e se alimentou o Novo Adão, sem qualquer nódoa ou mancha, pela operação do Espírito Santo que aí habita.
- É neste Paraíso Terrestre que está verdadeiramente a árvore da vida, que produziu Jesus Cristo, o fruto da vida; a árvore da ciência do bem e do mal, que deu a luz ao mundo. Há neste lugar divino árvores plantadas pela mão de Deus e regadas com a sua unção divina, que produziram e produzem ainda, cada dia, frutos de um sabor divino. Há canteiros esmaltados de belas e variadas flores de virtudes, exalando aroma que perfuma os próprios anjos. Há nele prados verdes de esperança, torres inexpugnáveis de força, casas encantadoras de confiança etc.
- A não ser o Espírito Santo, não há quem possa dar a conhecer a verdade escondida sob estas imagens de coisas materiais.
  • Respira-se neste lugar o ar puro e incontaminado de pureza;
  • nele brilha o dia belo e sem mancha da santa humanidade;
  • irradia o Sol jucundo e sem sombras da Divindade;
  • arde a fornalha ardente e contínua da Caridade, em que todo ferro que é lançado abrasa-se, transformando-se em ouro;
  • nele há um rio de humildade, que brota da Terra, e, dividindo-se em quatro braços, banha este lugar encantado: são as quatro virtudes cardeais (Gn 2, 8-10; § 6).

§262. O Espírito Santo, pela boca dos Santos Padres, também chama a Santíssima Virgem de:
1º. A Porta Oriental, por onde o grande sacerdote Jesus Cristo entra e sai do mundo (Ez 44, 2-3): Por Ela entrou a primeira vez, por Ela virá a segunda vez;
2º. O Santuário da Divindade, o Repouso da Trindade Santíssima, o Trono de Deus, a Cidade de Deus, o Altar de Deus, o Templo de Deus, o Mundo de Deus. Todos estes diferentes epítetos e louvores são muito verdadeiros, atendendo às diversas maravilhas e graças que o Altíssimo operou em Maria.
Oh! Que riquezas! Oh! Que glória! Oh! Que prazer! Oh! Que felicidade poder entrar e permanecer em Maria, onde o Altíssimo colocou o Trono da sua Glória Suprema!

§263. Mas como é difícil a pecadores como nós obter permissão e ter capacidade e luz para entrar neste lugar. Pois é tão alto e tão santo que é guardado, não por um querubim, como o antigo Paraíso Terrestre (Gn 3, 24), mas pelo próprio Espírito Santo, que se tornou seu Senhor absoluto.
- Por isso Ele diz a respeito de Maria: “Tu és um jardim fechado, ó minha irmã e esposa, tu és um jardim fechado e uma fonte selada” (Ct 4, 12). Maria está fechada e selada. Os miseráveis filhos de Adão e Eva, expulsos do Paraíso Terrestre, não podem entrar neste, senão por uma graça particular do Espírito Santo, graça que devem merecer.

§264. Quando, pela fidelidade, se obteve esta insigne graça, é preciso permanecer no interior de Maria, todo cheio de beleza.
- É preciso ficar lá com complacência, descansar em paz, apoiar-se confiadamente, esconder-se com segurança e perder-se sem reservas.
- O resultado será que, neste seio virginal:
1º. A alma será nutrida pelo leite da sua graça e da sua misericórdia maternal;
2º. Será libertada das suas perturbações, temores e escrúpulos;
3º. Estará em segurança contra todos os seus inimigos: o demônio, o mundo e o pecado, que n'Ela jamais entraram.
- Por isso Maria diz: “Os que em mim operam, não pecarão” (Eclo 24, 30). - Isto é, os que em espírito permanecem na Santíssima Virgem não cometerão pecados consideráveis;
4º. Será formada em Jesus Cristo e Jesus Cristo nela, Pois o seio de Maria é, como dizem os Santos Padres, a Sala dos Sacramentos Divinos (§ 248), onde Jesus Cristo e todos os eleitos foram formados: “Um homem e um homem nasceu d'Ela” (Sl 86, 5; n. 32).

Fazer tudo para Maria
§265. Devemos, finalmente, fazer todas as ações para Maria.
- Pois, visto que nos entregamos totalmente ao seu serviço, é justo que façamos tudo por Ela, como um criado, um servo, um escravo. Não que a tomemos como fim último dos nossos serviços, pois só Jesus Cristo o é.
- Mas tomamo-la como fim próximo, como meio misterioso e fácil para ir a Ele. Como bons servos e escravos, não devemos ficar ociosos, mas é preciso que, apoiados na sua proteção, empreendamos e realizemos grandes coisas para esta augusta Soberana.
- É preciso defender os Seus privilégios, quando lhos disputam, e sustentar a sua glória, quando a atacam. É preciso atrair todo o mundo, se for possível, ao seu serviço, e a esta Verdadeira e Sólida Devoção. É preciso falar e clamar contra os que abusam da sua Devoção para ultrajar seu Filho, e, ao mesmo tempo, estabelecer esta Verdadeira Devoção. É preciso pretender apenas, como recompensa destes pequenos serviços, a honra de pertencer a tão amável Princesa, a felicidade de sermos por Ela unidos a Jesus, seu Filho, com um laço indissolúvel, no tempo e na eternidade.
GLÓRIA A JESUS EM MARIA!
GLÓRIA A MARIA EM JESUS!
GLÓRIA A DEUS SÓ!
Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem Maria /  São Luis Maria Grignion de Monfort

quinta-feira, 20 de março de 2014

Maria, fazer tudo por Maria

Práticas particulares e interiores
para os que desejam vir a ser perfeitos
§257. As práticas exteriores desta Devoção, que acabo de referir, não devem omitir-se por negligência ou desprezo, na proporção em que o estado e a condição de cada um o permitem. Mas além destas práticas exteriores há ainda práticas interiores, muito santificantes para aqueles que o Espírito Santo chama a uma alta perfeição. Consistem, numa palavra, em
fazer todas as ações por Maria, com Maria, em Maria e para Maria, a fim de mais perfeitamente as fazer por Jesus Cristo, com Jesus Cristo, em Jesus e para Jesus.

Fazer tudo por Maria
§258. É necessário fazer todas as ações por meio de Maria, o que equivale a dizer que devemos obedecer em tudo à Santíssima Virgem, e conduzir-nos em tudo pelo seu espírito, que é o Espírito Santo de Deus. “Aqueles que são conduzidos pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus” (Rm 8, 14). Aqueles que são conduzidos pelo espírito de Maria são filhos de Maria e, por conseguinte, filhos de Deus, como já mostramos (§29-30).
- E entre tantos devotos da Santíssima Virgem, os devotos verdadeiros e fiéis são somente aqueles que se deixam conduzir pelo seu espírito. Eu disse que o espírito de Maria era o Espírito de Deus, porque Ela nunca se conduziu pelo seu próprio espírito, mas sempre pelo de Deus, o qual d'Ela tomou posse, de tal modo, que passou a ser o seu próprio espírito. É por isso que Santo Ambrósio diz:
Que a alma de Maria esteja em cada um para glorificar o Senhor;
que o espírito de Maria esteja em cada um para se alegrar em Deus”.
- Como é feliz uma alma quando - a exemplo de um bom irmão jesuíta, chamado Rodriguez e falecido em odor de santidade - ela é toda governada e possuída pelo espírito de Maria, que é um espírito suave e forte, zeloso e prudente, humilde, corajoso, puro e fecundo!

§259. A fim de que uma alma se deixe conduzir por este espírito de Maria é preciso:
1º. Renunciar ao seu próprio espírito, às suas próprias luzes e vontades antes de fazer qualquer coisa, por exemplo, antes de fazer oração, de celebrar ou assistir à Santa Missa, antes de comungar etc. Porque as trevas do nosso espírito próprio e a malícia da nossa vontade e obras poriam obstáculo ao santo espírito de Maria, se as seguíssemos, embora nos parecessem boas.
2º. Entregar-se ao espírito de Maria para ser movida e conduzida do modo que Ela quiser. Temos de nos pôr e nos abandonar nas suas mãos virginais, como um instrumento nas mãos do artífice, como uma cítara nas mãos dum bom músico.
- É preciso perder-se e entregar-se a Ela, como uma pedra que se atira ao mar, o que se faz tão simplesmente, num instante, por um olhar do espírito, um pequeno movimento da vontade, ou verbalmente, dizendo por exemplo:
 “Renuncio a mim mesmo e dou-me a Vós, ó minha querida mãe!”
- E ainda que não se experimente qualquer doçura sensível neste ato de união, ele não deixa de ser verdadeiro, assim como se alguém dissesse, o que Deus não permita: “Dou-me ao demônio”; se o dissesse com sinceridade, embora sem qualquer mudança sensível, não seria menos realmente do demônio.
3º. Renovar este mesmo ato de oferecimento e de união, de tempos a tempos, durante a ação ou depois dela. Quanto mais o repetir tanto mais depressa a alma se santificará e mais depressa chegará à união com Jesus Cristo, pois esta segue-se sempre à união com Maria, visto o espírito de Maria ser o de Jesus.

Fazer tudo com Maria
§260. É necessário fazer todas as ações com Maria.
- Para isso devemos pôr os olhos n'Ela, em todas as nossas ações, como no modelo acabado de toda a virtude e perfeição. É o modelo formado pelo Espírito Santo numa simples criatura, para nós o imitarmos, na medida das nossas limitadas forças. É preciso, portanto, que consideremos, em cada ação, o modo com o qual Maria a fez ou faria se estivesse no nosso lugar.
- Para isso devemos examinar e meditar as grandes virtudes que Ela praticou durante a vida, particularmente:
1º. A sua Fé viva, pela qual acreditou, sem hesitar, na palavra do anjo. Acreditou fielmente, constantemente, até o pé da Cruz, no Calvário;
2º. A sua Humildade profunda, que a fez esconder-se, calar-se, submeter-se a tudo e pôr-se no último lugar;
3º. A sua Pureza toda divina, que não teve nem jamais terá igual sob o Céu. Enfim, todas as suas demais virtudes (§108).
- Lembremo-nos, torno a repetir, que Maria é a grande e a única Fôrma de Deus (§218-221), própria para formar imagens de Deus, facilmente e em pouco tempo. Uma alma que achou deveras esta Fôrma e n'Ela se perdeu, em breve se transformará em Jesus Cristo, que este molde representa ao natural.

Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem Maria / São Luis Maria Grignion de Monfort

terça-feira, 18 de março de 2014

Maria, 5ª, 6ª e 7ª prática de devoção

Grande Devoção pela Ave-Maria e pelo Rosário
Continua Quinta prática:
§251. Não sei como isto se faz nem por quê, mas não deixa de ser uma realidade: não tenho melhor segredo para conhecer se uma pessoa é de Deus, do que ver se ela gosta de rezar a Ave-Maria e o Terço. E digo gosta, porque pode acontecer que uma pessoa esteja na impossibilidade natural ou mesmo sobrenatural de a rezar, mas sempre gosta e a inspira aos outros.

§252. Almas predestinadas, escravas de Jesus em Maria, ficai sabendo que a Ave-Maria é a mais bela de todas as orações, depois do Pai-Nosso. É a saudação mais perfeita que podemos dirigir a Maria, porque é a que o Altíssimo lhe transmitiu por um Arcanjo, a fim de lhe ganhar o Coração. E foi tão poderosa, pelos encantos secretos de que está cheia, que Maria consentiu na Encarnação do Verbo, apesar da sua profunda humildade. Será também por meio desta saudação que lhe ganharemos infalivelmente o Coração, se a dissermos como convém.

§253. A Ave-Maria bem rezada, isto é, rezada com atenção, devoção e modéstia, segundo os santos, é a adversária que põe o demônio em fuga e o martelo que o esmaga; é a santificação da alma, a alegria dos anjos, a melodia dos predestinados, o cântico do Novo Testamento, o gozo de Maria e a glória da Santíssima Trindade.
- A Ave-Maria é um orvalho do Céu, que torna a alma fecunda; é um beijo puro e amoroso que se dá a Maria; é uma rosa vermelha que se lhe apresenta, uma pérola preciosa que se lhe oferece, é um pouco de ambrosia e de néctar divino que se lhe dá. Todas estas comparações são dos santos.
A Ave-Maria é um orvalho celeste que molha a terra, isto é, a nossa alma, para que dê frutos no seu devido tempo. Uma alma não irrigada pelo orvalho celeste dessa oração não traz nenhum fruto, mas somente tribulação e espinhos, e está próxima de ser amaldiçoada.

§254. Peço-te instantemente, pelo amor que te tenho em Jesus e Maria, que não te contentes com rezar a coroinha de Nossa Senhora, mas que rezes o Terço cada dia, e mesmo, se tiveres tempo, o Rosário quotidiano. Se o fizeres, bendirás na hora da morte o dia e o momento em que me acreditaste. Depois de teres semeado nas bênçãos de Jesus e Maria, recolherás bênçãos eternas no Céu: “Aquele que semeia nas bênçãos, bênçãos recolherá também” (2 Cor 9, 6).

O Magnificat
§255. Sexta Prática. Para agradecer a Deus as graças que concedeu à Santíssima Virgem, as almas escolhidas dirão muitas vezes o Magnificat, a exemplo da Bem-aventurada Maria de Doignies e de vários outros santos. É a única oração e a única composição da Santíssima Virgem, ou, antes, que Jesus compôs n'Ela, pois Ele falava pela sua boca. Este é o maior sacrifício de louvor que Deus recebeu na lei da graça.
- Por um lado, é o mais humilde e reconhecido, por outro, o mais sublime e elevado de todos os cânticos. Há nele mistérios tão grandes e escondidos que os anjos os ignoram.
- Gerson, doutor muito piedoso e sábio, gastou uma parte da vida a compor tratados, plenos de erudição e piedade, sobre os mais difíceis temas. Mas foi só depois, no fim da vida, que empreendeu, a tremer, a explicação do Magnificat, para assim coroar todas as suas obras. Diz-nos, num volume in-fólio, que sobre ele compôs, coisas admiráveis do belo e divino cântico.
- Entre outras coisas, ele diz que a própria Santíssima Virgem o recitava muitas vezes, particularmente depois da Sagrada Comunhão, em ação de graças.
- O erudito Benzônio, explicando também o Magnificat, conta muitos milagres operados pela sua virtude. Diz que os demônios tremem e se põem em fuga quando ouvem as palavras:
“Manifestou o poder do seu braço e confundiu os soberbos
nos pensamentos de seus corações” (Lc 1, 51).

O desprezo do mundo
§256. Sétima prática. Os fiéis servidores de Maria devem desprezar,
odiar e fugir muito do mundo corrupto, e servir-se das práticas de desprezo do mundo, que indicamos na primeira parte.

Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem Maria
São Luis Maria Grignion de Monfort


domingo, 16 de março de 2014

Maria, 4ª e 5ª prática de devoção

Culto especial ao Mistério da Encarnação
Continua 4ª prática de devoção:
§245. 1ª. Estamos num século orgulhoso, em que abundam os sábios soberbos, os espíritos fortes e críticos, que acham o que criticar nas práticas de piedade mais fundadas e mais sólidas.
- A fim de não lhes fornecer, sem necessidade, um pretexto de crítica, vale mais dizer escravidão de Jesus Cristo em Maria, e dizer-se escravo de Jesus Cristo do que escravo de Maria. Assim denomina-se esta Devoção mais de acordo com o seu fim último, que é Jesus Cristo, do que com o caminho e meio para lá chegar, que é Maria. Apesar disso, podemos, na verdade, usar sem escrúpulos ambas as denominações, como eu mesmo faço. Por exemplo, um homem que vai de Orleans a Tours pelo caminho de Amboise pode muito bem dizer que vai a Amboise, e que vai a Tours; que é viajante para Amboise e para Tours. No entanto, a diferença é que Amboise é apenas o caminho direto para ir a Tours, e que só Tours é o seu fim último e o termo da sua viagem.

§246. 2ª. O principal mistério que se celebra e honra nesta Devoção é o mistério da Encarnação, no qual se pode ver Jesus em Maria, encarnado no seu seio. Por isso vem mais a propósito dizer escravidão de Jesus em Maria. Jesus habitando e reinando em Maria, conforme a bela oração de tantos homens célebres:
“Ó Jesus, que viveis em Maria, vinde e vivei em Vossos servos, no espírito da Vossa Santidade, na Plenitude de Vossa Força, na Perfeição de Vossas Vias, na Verdade de Vossas Virtudes, na Comunhão de Vossos Mistérios, dominai sobre toda a potestade inimiga, em Vosso Espírito para a Glória do Pai. Amém.”

§247. Este modo de falar mostra mais claramente a íntima união que existe entre Jesus e Maria. Estão unidos tão intimamente que um está todo no outro: Jesus todo em Maria e Maria toda em Jesus. Ou antes, Ela já não existe: é Jesus que é tudo n'Ela. Seria mais fácil separar do Sol a sua luz, que Maria de Jesus. Pelo que se pode chamar a Nosso Senhor, Jesus de
Maria, e à Santíssima Virgem, Maria de Jesus.

§248. O tempo não permite deter-me aqui para explicar as excelências e grandezas deste mistério de Jesus vivendo e reinando em Maria, ou da Encarnação do Verbo. Por isso contento-me com dizer, em duas palavras, que este é o primeiro dos mistérios de Jesus Cristo, o mais oculto, o mais elevado e o menos conhecido.
- Foi neste mistério que Jesus escolheu todos os eleitos com a colaboração de Maria, escondido no seu seio, que por isso é chamado pelos santos de “A Sala dos Segredos Divinos”. Foi neste mistério que Jesus operou todos os mistérios que depois se seguiram na sua vida, pela aceitação que deles fez. “Jesus, entrando no mundo, disse: Eis que venho para fazer a tua vontade, ó Deus” (Hb 10, 5-9). Por conseguinte, este mistério é um resumo de todos os outros; encerra a vontade e a graça de todos.
- Finalmente é o Trono da Misericórdia, da Liberalidade e da Glória de Deus.

Trono da sua Misericórdia para nós, pois só podemos nos aproximar de Jesus por meio de Maria, bem como só podemos vê-lo e falar-lhe por intermédio de Maria. Jesus, que atende sempre à sua querida Mãe, concede neste mistério sua graça e misericórdia aos pobres pecadores. “Vamos, pois, com confiança, ao trono da graça” (Hb 4, 16).

Trono da sua Liberalidade para com Maria, pois, enquanto o Novo Adão permaneceu neste verdadeiro Paraíso Terrestre, operou tantas maravilhas escondidas, que nem os anjos nem os homens as podem compreender. É por isso que os santos chamam Maria de a Magnificência de Deus, como se Deus só em Maria fosse Magnífico (Is 33, 21).

Trono da sua Glória para o Pai celeste, pois foi em Maria que Jesus Cristo aplacou perfeitamente seu Pai, irritado com os homens. Foi n'Ela que Jesus reparou cabalmente a glória que o pecado lhe tinha roubado. No sacrifício que fez da sua vontade e de si mesmo, Jesus deu mais glória a Deus do que jamais lhe teriam dado todos os sacrifícios da Antiga Lei. Enfim, foi em Maria que Jesus deu ao Pai uma glória infinita, que jamais havia recebido do homem.

Grande Devoção pela Ave-Maria e pelo Rosário
§249. Quinta prática. Terão muita devoção em rezar a Ave-Maria, ou Saudação Angélica. Poucos cristãos, embora esclarecidos, conhecem o valor, o mérito, a excelência e a necessidade desta oração. Foi preciso que a Santíssima Virgem aparecesse repetidas vezes a grandes santos muito esclarecidos, como São Domingos, São João Capistrano, o bem-aventurado Alano da Rocha, para lhes mostrar o mérito desta oração. Compuseram grossos volumes sobre as maravilhas da sua eficácia na conversão das almas. Publicaram altamente e pregaram publicamente que, tendo a salvação do mundo começando pela Ave-Maria, a salvação de cada alma em particular está ligada a esta oração.

- Foi esta oração que fez dar à Terra seca e estéril o fruto da vida, e é esta mesma oração que, rezada com devoção, deve fazer germinar nas nossas almas a Palavra de Deus, e fazer brotar o fruto de vida, que é Jesus Cristo.
- Disseram ainda que a Ave-Maria é um celeste orvalho que rega a Terra, isto é, a alma, para lhe fazer produzir fruto a seu tempo. E a alma que não for regada por esta oração ou orvalho celeste não dará fruto, mas apenas sarças e espinhos, não estando longe de ser amaldiçoada.

§250. Eis o que a Santíssima Virgem revelou ao Bem-aventurado Alano da Rocha, conforme é referido no seu livro “De dignitate Rosarii”, e depois citado por Cartagena. “Fica sabendo, meu filho, e fá-lo saber a todos, que um sinal provável e próximo de condenação eterna é ter aversão, tibieza e negligência em rezar a Saudação Angélica, que salvou todo o mundo”.
- Palavras tão consoladoras quão terríveis, que dificilmente se acreditariam se não tivéssemos esse santo por garantia e, antes dele, São Domingos, e depois muitos outros grandes personagens, com a experiência de muitos séculos.
- Efetivamente, sempre se verificou que os que trazem o sinal da condenação, como todos os hereges, os ímpios, os orgulhosos e os mundanos odeiam e desprezam a Ave-Maria e o Terço.

- Os hereges ainda aprendem e rezam o Pai-Nosso, mas não a Ave-Maria, nem o Terço. Têm-lhes horror; preferiam trazer consigo uma serpente a um Terço. Os orgulhosos, embora católicos, como têm as mesmas inclinações que seu pai Lúcifer, também desprezam ou votam indiferença à Ave-Maria,
considerando o Terço como uma devoção para efeminados, própria para ignorantes e analfabetos. Pelo contrário, a experiência tem mostrado que aqueles e aquelas que apresentam grandes sinais de predestinação amam, saboreiam e rezam com prazer a Ave-Maria, e que quanto mais são de Deus, tanto mais gostam desta oração. Foi o que disse a Santíssima Virgem
ao bem-aventurado Alano, depois das palavras que acabo de citar.
  
Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem Maria / São Luis Maria Grignion de Monfort

sexta-feira, 14 de março de 2014

Maria, 3ªe 4ª prática de devoção

Uso das Cadeiazinhas
§236. Terceira prática. É muito louvável, muito glorioso e útil para aqueles e aquelas que assim se fazem escravos de Jesus em Maria, que usem umas cadeiazinhas de ferro. Estas ser-lhes-ão um sinal da sua Escravidão de Amor, e serão bentas com uma bênção própria. Estes sinais exteriores não são, na verdade, tão essenciais, e uma pessoa pode passar bem sem eles, embora se tenha abraçado a esta Devoção. Mas os escravos de amor sacudiram as cadeias vergonhosas da escravidão do demônio, a que o pecado original e talvez os pecados atuais os tinham reduzido. 
Por isso não posso deixar de louvar aqueles e aquelas que se sujeitaram voluntariamente à gloriosa escravidão de Jesus Cristo, e se gloriam, com São Paulo, de estar em cadeias por amor de Jesus Cristo (Ef 3, 1). Estas cadeias são mil vezes mais preciosas, embora de ferro e sem brilho algum, que todos os colares de ouro dos imperadores.

§237. Ainda que outrora não houvesse nada de mais difamante do que a Cruz, no presente é esse madeiro o que há de mais glorioso no Cristianismo. O mesmo se diga dos ferros da escravidão.
- Entre os antigos e, mesmo hoje, entre os pagãos, nada há de mais ignominioso. Mas para os cristãos não há nada mais ilustre do que essas cadeias de Jesus Cristo. Elas livram-nos e preservam-nos dos infames laços do pecado e do demônio. Colocam-nos em liberdade e ligam-nos a Jesus e a Maria, não por imposição e por força como se faz a forçados, mas por caridade e amor, como a filhos. “Atrai-los-ei com cadeias de caridade”, diz Deus pela boca dum profeta (Os 11, 4) . 
- Estas cadeias são, por conseguinte, fortes como a morte, e, de certo modo, mais fortes ainda nas pessoas que forem fiéis em usar estes gloriosos sinais até a morte. Pois, embora a morte destrua seus corpos, reduzindo-os à podridão, não destruirá esses laços da sua escravidão, já que sendo de ferro, não se corrompem facilmente. E talvez no dia da ressurreição da carne, no grande momento do juízo final, essas cadeias, que lhes ligarão ainda os ossos, constituam parte da sua glória e sejam transformadas em gloriosas cadeias de luz. Felizes, portanto, mil vezes felizes, os ilustres escravos de Jesus em Maria, que usarem estas cadeias até a sepultura!

§238. Eis as razões por que se usam estas cadeiazinhas:
- A primeira razão é para que o cristão se lembre dos votos e promessas do seu Batismo; para que se recorde da renovação perfeita que deles fez, por meio desta Devoção, e da estreita obrigação em que está de lhes ser fiel. O homem conduz-se, muitas vezes, mais pelos sentidos do que pela fé pura, e esquece-se facilmente das suas obrigações para com Deus, se não houver qualquer coisa exterior que lhas faça lembrar. Ora, estas cadeiazinhas servem maravilhosamente para lembrar ao cristão as cadeias do pecado e da escravidão do demônio, de que o Batismo o livrou.
- Lembram também a dependência de Jesus Cristo em que o homem se colocou pelo Santo Batismo, bem como a ratificação que dela fez ao renovar as suas promessas. Uma das razões por que tão poucos cristãos pensam nas promessas do seu Santo Batismo e vivem tão livremente como se nada tivessem prometido a Deus, como os pagãos, é que não trazem nenhum sinal exterior que os faça lembrar disso.

§239. A segunda razão é para mostrar que não nos envergonhamos de ser escravos e servos de Jesus Cristo, e que renunciamos à funesta escravidão do mundo, do pecado e do demônio.
- Uma outra razão é para servirem de garantia e preservação contra as cadeias do pecado e do demônio. Pois temos de trazer ou as cadeias da iniquidade, ou as cadeias da caridade e da salvação.

§240. Ah! Meu querido irmão, quebremos as cadeias do pecado e dos pecadores, do mundo e dos mundanos, do demônio e dos seus sequazes, e “lancemos para longe de nós o seu jugo funesto” (Sl 2, 3).
- Para me servir das palavras do Espírito Santo:
“Ponhamos os pés nos Seus gloriosos ferros, e o pescoço nos Seus grilhões” (Eclo 6, 25). “Curvando os ombros, levemos a Sabedoria, que é Jesus Cristo, sem aborrecermos as suas cadeias” (Eclo 6, 26).
- Note-se que antes de dizer estas palavras, o Espírito Santo vai preparando a alma, para que não venha a rejeitar este importante conselho. - Eis as suas palavras: “Ouve, meu filho, e recebe um conselho de sabedoria, e não rejeites o meu conselho (Eclo 6, 24).

§241. Permite-me, meu querido amigo, que eu me una ao Espírito Santo, para te dar o mesmo conselho: “As suas cadeias são cadeias de salvação” (Eclo 6, 31). Jesus Cristo, do alto da Cruz, deve atrair tudo a si, livre ou forçadamente. Ele atrairá os réprobos com as cadeias de seus pecados a fim de os acorrentar, como forçados e demônios, à sua ira eterna e à sua justiça vingadora. Mas atrairá particularmente nestes últimos tempos, os predestinados, com cadeias de caridade: “Atrairei tudo a Mim” (Jo 12, 32). “Hei de atraí-los com cadeias e vínculos de caridade” (Os 11, 4).

§242. Estes escravos de amor de Jesus Cristo, estes prisioneiros de Jesus Cristo, podem usar as cadeias ao pescoço, nos braços, à cintura ou nos pés. O Padre Vicente Caraffa, sétimo Geral da Companhia de Jesus, que faleceu em odor de santidade em 1643, trazia uma argola de ferro nos pés, como sinal da sua servidão, e dizia que lamentava não poder arrastar publicamente as suas cadeias. A Madre Inês de Jesus, de quem já falamos, usava uma corrente de ferro em volta da cintura.
- Alguns outros usaram-na ao pescoço, como penitência pelos colares de pérolas que tinham trazido no mundo. Outros ainda usaram-na nos braços, para se lembrarem, nos seus trabalhos manuais, de que eram escravos de Jesus Cristo.

Culto especial ao Mistério da Encarnação
§243. Quarta prática. Terão especial devoção ao grande mistério da Encarnação do Verbo, celebrado no dia 25 de março. É o mistério próprio desta Devoção, visto que ela foi inspirada pelo Espírito Santo:
1º. Para honrar e imitar a inefável dependência que o Filho de Deus quis ter de Maria, para glória de seu Pai e para nossa salvação. Esta dependência manifesta-se duma maneira particular neste mistério, em que Jesus Cristo está cativo e escravo no seio de Maria Santíssima, e onde depende d'Ela em todas as coisas.
2º. Para agradecer a Deus as graças incomparáveis que deu a Maria e, particularmente, por a ter escolhido para sua tão digna Mãe, escolha que se realizou neste mistério.
- Estes são os dois fins principais da escravidão de Jesus Cristo em Maria.

§244. Nota, por favor, que eu digo, habitualmente, escravo de Jesus em Maria, escravidão de Jesus em Maria. Pode-se realmente dizer, como muitos o fizeram até aqui, escravo de Maria, escravidão de Maria. Mas parece-me preferível dizer escravo de Jesus em Maria. Como aconselhava o Padre Tronson, Superior Geral do Seminário de São Sulpício, celebre por sua rara prudência e piedade consumada. Foi assim que aconselhou um sacerdote que o consultou sobre este assunto. E as razões de tal proceder são as seguintes:
Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem Maria

São Luis Maria Grignion de Monfort