quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Maria, Liberdade interior

Esta Devoção dá uma grande liberdade de espírito
§169. Sexto motivo. Esta prática de Devoção dá uma grande liberdade interior àqueles que a observam fielmente. 
- É a liberdade dos filhos de Deus (Gl 5, 1-13; 2 Cor 3, 17; Rm 8, 21)
- Como por esta Devoção nos tornamos escravos de Jesus Cristo, consagrando-nos totalmente a Ele nesta qualidade, este bom Mestre recompensa o cativeiro amoroso em que nos colocamos da seguinte maneira:
  • Tira da alma todo escrúpulo e temor servil, que só servem para a estreitá-la, escravizá-la e confundi-la;
  • Dilata o coração para uma santa confiança em Deus, fazendo-o ver n'Ele seu Pai;
  • Inspira-lhe um amor terno e filial.

§170. Sem me deter em provar esta verdade por meio de razões, contento-me em citar um fato histórico que li na vida da Madre Inês de Jesus. Era religiosa jacobina do convento de Langeac, em Auvergne, e faleceu nesse mesmo local em odor de santidade no ano de 1634. Ainda não tinha mais de sete anos quando já sofria de grandes penas do espírito. Foi então que ouviu uma voz dizer-lhe que, se desejava ser livre de todas as suas penas e protegida contra todos os seus inimigos, deveria tornar-se o mais depressa possível escrava de Jesus e de sua Santa Mãe.
- Mal regressou a casa, deu-se inteiramente como escrava a Jesus e à sua Santa Mãe, embora não conhecesse até aquela data esta Devoção. Tendo encontrado uma cadeia de ferro, cingiu-se com ela sobre os rins e usou-a até a morte. Depois desta ação cessaram todas as suas penas e escrúpulos.
- Ficou em tanta paz e liberdade de coração que ensinou esta prática a várias pessoas - que nela fizeram grandes progressos - entre outros ao Pe. M. Olier, fundador do Seminário de São Sulpício, e a outros sacerdotes e eclesiásticos do mesmo seminário. Um dia apareceu-lhe a Santíssima Virgem e pôs-lhe ao pescoço uma cadeia de ouro, testemunhando-lhe assim a alegria que sentia por ela se ter feito escrava sua e de seu Filho.
- S. Cecília, que acompanhava a Santíssima Virgem, disse-lhe:
Felizes os fiéis escravos da Rainha do Céu, porque gozarão a verdadeira liberdade: Ó Mãe, servir-Vos é a liberdade!

Esta Devoção causa grandes vantagens para o próximo
§171. Sétimo motivo. Outro motivo que nos pode comprometer a abraçar esta Devoção são os grandes bens que dela receberá nosso próximo. 
- Por esta prática exercemos a caridade para com ele duma maneira eminente, pois damos-lhe, pelas mãos de Maria, o que temos de mais caro, ou seja, o valor satisfatório e impetratório de todas as nossas boas obras, sem excluir o mínimo bom pensamento ou o mais leve sofrimento.
- Consentimos que todas as satisfações que adquirimos e havemos de adquirir até a morte sejam aplicadas, segundo a vontade da Santíssima Virgem, ou pela conversão dos pecadores, ou pela libertação das almas do Purgatório.
- Não será isto amar perfeitamente o nosso próximo? (Jo15, 13).
- Não é isto ser verdadeiro discípulo de Jesus Cristo, que se reconhece pela caridade? (Jo 13, 35).
- Não é este o meio de converter os pecadores sem perigo de vaidade, e de libertar as almas do Purgatório quase sem fazer mais nada além do que nos impõem os deveres de estado?

§172. Para se apreciar a excelência deste sétimo motivo seria preciso conhecer o bem que é a conversão dum pecador ou a libertação duma alma do Purgatório. 
É um bem infinito, maior do que criar o Céu e a Terra, pois é dar a uma alma a posse de Deus.
- Quando por esta prática se livrasse apenas uma alma do Purgatório, durante toda a vida, ou se convertesse apenas um pecador, não bastaria isso para levar todo homem verdadeiramente caridoso a abraçá-la?
- Mas é preciso notar que as nossas boas obras, passando pelas mãos de Maria, recebem um aumento de pureza e, por conseguinte, de mérito e de valor satisfatório e impetratório. 
- Tornam-se assim muito mais eficazes para aliviar as almas do Purgatório e converter os pecadores do que se não passassem pelas mãos virginais e generosas de Maria.
- O pouco que por Ela se dá, sem vontade própria e com uma caridade muito desinteressada, torna-se verdadeiramente poderoso para aplacar a cólera de Deus e atrair a sua misericórdia.
- Na hora da morte verificar-se-á que uma pessoa realmente fiel a esta prática, terá livrado, por este meio, muitas almas do Purgatório e convertido muitos pecadores, embora só tenha praticado as ações ordinárias do seu estado. Que alegria no momento do juízo! Que glória para a eternidade!
Quanto mais atenção dedicares a Maria nas tuas orações, ações, contemplações e sofrimentos, mais perfeitamente encontrarás Jesus Cristo, que está sempre com Ela.
Esta Devoção é um meio admirável de perseverança
§173. Oitavo motivo. Enfim, o que de certo modo nos impelirá mais fortemente ainda para esta Devoção à Santíssima Virgem é ser ela o meio admirável para perseverarmos na virtude e sermos fiéis.
  • Por que é que a maior parte das conversões dos pecadores não são duradouras?
  • Por que recaem eles tão facilmente no pecado?
  • Por que é que a maior parte dos justos, em vez de ir de virtude em virtude e de alcançar novas graças, perdem muitas vezes as poucas virtudes e graças que possuem?
- Esta desgraça provém, como já acima mostrei (nn.87-89), de que estando o homem tão corrompido, tão fraco e inconstante, se fia em si próprio, se apoia nas suas próprias forças e se julga capaz de guardar o tesouro das suas graças, virtudes e méritos.
- Por meio desta Devoção, confiamos à Santíssima Virgem -e sabemos como Ela é fiel- tudo o que possuímos.
- Tomamo-la como depositária universal de todos os nossos bens da natureza e da graça. Confiamo-nos à sua fidelidade, apoiamo-nos no seu poder e fundamo-nos na sua misericórdia e caridade, a fim de que conserve e aumente as nossas virtudes e méritos, apesar dos esforços que o demônio, o mundo e a carne fazem para nos roubar.
- Dizemos-lhe como um bom filho à sua mãe e um fiel servo à sua senhora:
“Guardai o meu depósito!” (1 Tm 6, 20).
- Minha boa Mãe e Senhora, reconheço que, por Vossa intercessão, recebi até hoje mais graças de Deus do que merecia. A minha triste experiência me ensina que trago este tesouro num vaso muito frágil, e que sou demasiado fraco e miserável para o conservar em mim:
“Sou novo e desprezado” (Sl 118, 141)
- Recebei, por favor, em depósito, tudo quanto possuo, e conservai-me por Vossa fidelidade e poder.
- Se me guardardes, nada perderei; se me sustentardes, não hei de cair; se me protegerdes, estarei ao abrigo dos meus inimigos.

Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem Maria

São Luis Maria Grignion de Monfort

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