quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Maria, 3ª verdade da devoção

Devemos esvaziar-nos do que há de mau em nós
§78. Terceira Verdade. As nossas melhores ações são ordinariamente manchadas e corrompidas pelo mau fundo que há em nós.
- Quando se deita água límpida e clara numa vasilha que não tem bom cheiro, ou vinho numa pipa cujo interior está azedado por outro vinho, que teve anteriormente, a água clara e o vinho bom ficam estragados e ganham facilmente o mau cheiro.
- Do mesmo modo, quando Deus infunde em nossa alma, corrompida pelo pecado original e atual, as suas graças e orvalhos celestes, ou o vinho delicioso do seu Amor, assim também os Seus dons são ordinariamente manchados e estragados pelo mau fermento e mau fundo que o pecado deixou em nós.
- Os nossos atos, mesmo as virtudes mais sublimes, disso se ressentem.
- É, pois, da mais alta importância, para adquirir a perfeição - que só se alcança pela união com Jesus Cristo - esvaziarmo-nos do que há de mau em nós. Doutra forma, Nosso Senhor, que é infinitamente puro e que odeia infinitamente a menor mancha que vê na alma, afastar-nos-á de Seus olhos e não se unirá a nós.

Para nos despojar de nós mesmos é preciso:
§79. Em primeiro lugar, conhecer bem, pela luz do Espírito Santo:
  • o nosso fundo mau,
  • a nossa incapacidade para qualquer bem útil à salvação,
  • a nossa fraqueza em todas as coisas,
  • a nossa permanente inconstância,
  • a nossa indignidade de toda a graça,
  • a nossa iniquidade em toda a parte.
- O pecado dos nossos primeiros pais arruinou-nos a todos quase por completo, azedou-nos, corrompeu-nos, fez-nos inchar como o fermento faz à massa em que é lançado.
- Os pecados atuais que cometemos, quer mortais, quer veniais, embora tenham sido perdoados, aumentaram-nos a concupiscência, a fraqueza, a inconstância e corrupção, deixando maus vestígios na nossa alma.
- O nosso corpo é tão corrupto que é chamado pelo Espírito Santo corpo de pecado (Rm 6, 6; Sl 50, 7), concebido no pecado, alimentado no pecado, capaz de todo pecado e sujeito a mil enfermidades.
- Corrompe-se de dia a dia, e gera somente sarna, vermes e corrupção.
- A nossa alma, unida ao corpo, tornou-se tão carnal que chega a ser chamada carne:
Toda a carne tinha corrompido o seu caminho” (Gn 6, 12).
- A nossa única herança é:
·         o orgulho e a cegueira de espírito,
·         o endurecimento do coração,
·         a fraqueza e a inconstância da alma,
·         a concupiscência,
·         a revolta das paixões e as doenças do corpo.
- Somos, naturalmente:
·          mais orgulhosos que os pavões,
·         mais apegados à Terra que os sapos,
·         piores que os bodes,
·         mais invejosos que as serpentes,
·         mais gulosos que os porcos,
·         mais coléricos que os tigres e
·         mais preguiçosos que as tartarugas,
·         mais fracos que caniços e
·         mais inconstantes que os cata-ventos.
De nosso só temos o nada e o pecado,
e só merecemos a ira de Deus e o inferno eterno.

§80. Depois disto, será para admirar que Nosso Senhor tenha dito que quem o quisesse seguir devia renunciar a si mesmo e odiar a sua própria alma? (Mt 16, 24).
- Que aquele que amasse a sua alma a perderia, e o que a odiasse a salvaria? (Jo 12, 25).
- Esta Sabedoria infinita, que não impõe mandamentos sem razão, não nos manda odiarmo-nos a nós mesmos senão porque somos sumamente dignos de ódio. Nada há tão digno de amor como Deus, e nada tão digno de ódio como nós.
Podemos, portanto, conforme os sentimentos dos Santos
e de muitos homens célebres, dizer-nos e tornar-nos
escravos de amor de Maria Santíssima, para ser, assim,
mais perfeitamente escravos de Jesus Cristo.

§81. Em segundo lugar, para nos despojar de nós mesmos, é preciso morrer todos os dias.
- Isto quer dizer que é preciso renunciar às operações das potências da nossa alma e dos sentidos do nosso corpo, ou seja:
    temos de ver como se não víssemos,
·         de ouvir como se não ouvíssemos,
·         de nos servir das coisas deste mundo como se delas não nos servíssemos (1Cor 7, 29-31).

- É a isto que São Paulo chama de morrer todos os dias (1 Cor 15, 31).
Se o grão de trigo cai à Terra e não
morre, permanece só e não produz fruto” (Jo 12, 24).
- Se não morrermos para nós mesmos, e se as nossas devoções mais santas não nos levam a esta morte necessária e fecunda, não daremos fruto que valha. Porque então as nossas devoções tornar-se-ão inúteis, todas as nossas boas obras serão manchadas pelo amor próprio e pela nossa vontade própria, o que fará com que Deus abomine os maiores sacrifícios e as melhores ações que possamos fazer.
- E, nesse caso, encontrar-nos-emos com as mãos vazias de virtudes e méritos na hora da nossa morte, e não teremos sequer uma centelha de Puro Amor, pois este só é dado às almas mortas para si mesmas e cuja vida está oculta com Jesus Cristo em Deus (Cl 3, 3).

§82. Em terceiro lugar, é preciso escolher, dentre todas as devoções à Santíssima Virgem, aquela que nos leva mais a esta morte para nós próprios, porque é esta a melhor e a mais santificante.
- Não se julgue, de fato, que tudo o que brilha é ouro, que tudo o que é doce é mel, e que tudo o que é fácil e praticado pela maior parte das pessoas é o mais santificante.
- Na natureza há segredos para fazer operações naturais em pouco tempo, econômica e facilmente.
- Na ordem da graça existem também segredos para fazer operações sobrenaturais em pouco tempo, suavemente e facilmente, tais como: despojar-se de si mesmo, encher-se de Deus e tornar-se perfeito.
- A prática que quero revelar é um desses segredos de graça, desconhecido pela maior parte dos cristãos, conhecido por poucas almas piedosas, praticado e apreciado por menos ainda.
- Para começar a descobrir esta prática, eis uma quarta verdade, que é uma consequência da terceira.

Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem Maria

São Luis Maria Grignion de Monfort

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